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quinta-feira, 2 de julho de 2015

Dilma não é Collor, mas está encurralada

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O leitor dos três principais jornais de circulação nacional tem diariamente diante de si uma narrativa que busca assemelhar o momento de Dilma ao de Collor, o presidente que sofreu impeachment nos anos 1990. São eixos da narrativa ou das semelhanças: a impopularidade, as denúncias se avolumando e se aproximando da presidente (faz poucos dias Dilma respondeu ao delator em uma aparente mudança de estratégia diante dos fatos), mas também o retrato de uma presidente isolada, que diz frases soltas e desconexas – como se vivesse em um mundo à parte, imagem semelhante à de Collor às vésperas de sair do Palácio do Planalto para, muitos anos depois, ser inocentado pelo STF.
Mas afinal, interessa de fato às oposições derrubarem Dilma? Os próprios jogadores políticos parecem aguardar o desdobramento dos fatos que, após as novas delações vazadas do homem da UTC, ganharam dinamismo. A prisão dos executivos das duas maiores empreiteiras do país, junto com a sugestão velada do juiz de que estas não poderiam participar de futuras licitações, amplia a questão para a seara econômica, dos negócios. Algo assim: vai se criando um clima, um nó, que para as coisas voltarem a andar, a funcionar no país (o que os ingleses chamariam de business as usual), será necessário tirar Dilma. Com o PT esfacelado, o movimento sindical insatisfeito, a opinião pública desiludida, os mais pobres (base social do antigo lulismo) pagando o pato do ajuste, quem resistirá?
O enredo faz sentido, não fosse pela pergunta: e o dia seguinte?
É possível que as peças que se movimentam para cercar a presidente não tenham, ainda, encontrado resposta adequada. Até lá, tem jogo. E pode até virar, nunca se sabe.
Se a política fosse uma disputa de xadrez é capaz que, transcorridos 6 meses de mandato, Dilma já tivesse perdido um cavalo, uma torre, dois bispos e, quem sabe, a Rainha. A esta altura, terminar o jogo empatado já será de bom tamanho para o governo. E para as oposições, até onde vai a brincadeira?
Em primeiro lugar não existe uma, mas várias oposições – a de Aécio não é a mesma de Alckmin, que não e a de Serra nem muito menos a de Eduardo Cunha, este campeão da (eficaz) ambiguidade. Não está claro se o objetivo é o xeque-mate ou uma situação permanente de acuamento. Dilma encurralada, enfim, cedendo até onde os olhos alcançam. A ser salva, quem sabe, pela economia, daqui alguns vários e longos meses, e olhe lá, na melhor das hipóteses.
Seja como for, as oposições parecem apostar em diferentes frentes de cerco, todas com características político-jurídicas. No TCU/Congresso com o julgamento das contas de governo; no STF/CPI com a Operação Lava Jato e no TSE onde há recursos pendentes impetrados pela oposição referentes à campanha de 2014.
Esse caminho de ‘judicializar’ a política, como se costuma dizer, encontra, porém, constrangimentos. Na atual conjuntura, e talvez o principal, no que diz respeito ao menos à Lava Jato, é que há um rol extenso de políticos – tanto da situação como da oposição – na mira de diferentes investigações. Observando o cenário à distância, não parece tão simples a costura de algum pacto “por cima”, nem tão ferrenha a disposição das partes de ir até o fim, doa a quem doer (um chavão muito utilizado na política quando se diz que tal coisa será investigada, de forma “rigorosa”, no mais das vezes).
Dessa pororoca faz-se o Brasil atual.
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